Uma degustação incomum: Bordeaux
O vermelho rubi do Latour à Pomerol safra 61 brilha no cálice. O aroma maduro extrapola os limites da taça e dos sentidos. O gosto dessa bebida divina realmente faz qualquer um ajoelhar.
Seria o Latour um dos maiores vinhos da história desde 1900? Alguns colecionadores de Bordeaux e experts estão convencidos de que a resposta a essa pergunta é afirmativa. Eu, que até agora achava que o "Rei Vermelho de Graves", safra 89, era o favorito, entendi a mensagem dos conhecedores de Bordeaux.
Há pouco tempo, foi feita uma pesquisa entre os distribuidores e colecionadores europeus, que resultou no nome dos grandes Mouton-Rothschild, safras 1945 e 1982 como os preferidos vinhos tintos. E o resultado dessa pesquisa foi selecionado para a degustação do século, que ocorreu no "China- Club" de Berlim. Os vinhos foram decantados 5 horas antes do evento.
Para ser sincero, eu realmente celebrei ao máximo a ocasião, aproveitando com todos os sentidos. Acabei por concordar com Robert Parker, que "concedeu" 100 pontos +" para o Château Lafite safra 1870, dentre os mais elegantes Haut-Brion até o ano de 1900. E o Latour à Pomerol convenceu, com sua maturidade concentrada. Ficou em terceiro lugar.
Não há dúvida de que o vinho, de todos os preços, é (e deve ser) fonte de prazer, e que também é objeto de apreciação e avaliação dos experts, enólogos, colecionadores. Mas mais do que isso, o vinho deve ser não apenas uma bebida deliciosa, mas também parte de uma filosofia de vida. E os grandes vinhos, mais do que tudo isso, são ainda um mistério, incalculáveis, não podendo ser analisados sob a ótica usual do custo-benefício. Alguns são como um pedaço do infinito, como é o caso do Latour à Pomerol safra 61.
Na lista dos vinhos "cult", o tinto predomina. Desses, no mínimo, dois grandes vinhos pertencem à lista
ultimativa dos melhores: Château d'Yquem, o melhor dos doces, e o Le Montrachet 1979 (Ramonet), pesado no álcool, mas um choque de felicidade para os apreciadores.
E, por incrível que pareça, no mundo do vinho, em meio a toda tradição, a mudança se faz sempre presente. Por exemplo, o Pétrus, que ninguém conhecia há 45 anos atrás. A lenda teve início no restaurante "Pavillon", em Nova Iorque, quando o proprietário resolveu não apenas apresentar aos os seus convidados, os Windsors, Onassis e Kennedys, o Latour e Lafite, mas escolheu um vinho de sua adega. Serviu o Château Pétrus. O Pétrus passou então a ser um dos vinhos mais caros do mundo, o que não significa que seja um dos maiores. Eu, particularmente, não acho que seja um dos maiores. Maior não é o caro. Maior é o melhor.